"Este julgamento não tem a ver com um julgamento num País democrata. A Inquisição não faria melhor", disse Sá Fernandes, culpando o Ministério Público pela criação de "monstros judiciais" por não fazer a "pedagogia da racionalidade". "O País vive num lamaçal. Ninguém sabe o que é verdade e o que é mentira, ninguém faz avaliação de factos. É um grande problema da sociedade e da Justiça", declarou o advogado de Cruz, referindo-se expressamente aos "acontecimentos da última semana", numa alusão ao processo Freeport, e em comparação com o processo Casa Pia. "Jesus Cristo também foi condenado na opinião pública", acrescentou.
Apesar de se ter dirigido ao procurador João Aibéo, que se manteve sereno perante as críticas do advogado, Ricardo Sá Fernandes responsabilizou o magistrado João Guerra pela "tragédia" que considera ser o caso de pedofilia.
" A Justiça tem rosto e tem nome, não é justo criticar-se a Justiça em abstracto. Cometeram-se erros grosseiros e o principal responsável é João Guerra", afirmou, exaltado, Ricardo Sá Fernandes, considerando que a Acusação "partiu de teorias e depois tentou adaptar os factos a essas teorias". O defensor voltou a alegar que o processo é uma "fantasia adolescente" e manifestou-se convicto de que os juízes decidirão pela absolvição.
Antes de Sá Fernandes, o advogado de Manuel Abrantes também respondeu ao Ministério Público e pediu um esclarecimento "cabal" sobre a existência ou não de um acordo entre Carlos Silvino e a Acusação.
APONTAMENTOS
QUATRO CRIMES
O Ministério Público deu como provados quatro dos seis crimes de natureza sexual imputados a Carlos Cruz, entre os quais os dois legados abusos ocorridos na avenida das Forças Armadas, em Lisboa.
MARÇAL SEM RESPOSTA
A Defesa de Hugo Marçal prescindiu de responder à réplica do Ministério Público, ao contrário dos restantes arguidos. Hoje, têm a palavra, durante duas horas cada, as Defesas de Ferreira Diniz e de Gertrudes Nunes.
ALTERAÇÕES À ACUSAÇÃO
O Ministério Público deve formalizar esta semana, após a resposta dos arguidos às suas alegações, as alterações à pronúncia. João Aibéo requer alterações de datas e locais.
MAIS TESTEMUNHAS
O advogado de Manuel Abrantes, Paulo Sá e Cunha, admitiu ontem requerer nova produção de prova - audição de testemunhas - se as alterações pedidas pelo procurador forem aceites pelo tribunal.