sábado, 5 de setembro de 2009

Filho e nora trancaram-no 14 anos para ficar com pensão



A GNR foi alertada pelos gritos do idoso, fechado numa barraca onde comia enlatados, fazia as necessidades na roupa e não tomava banho. Hoje o idoso encontra-se num lar, enquanto os seus sequestradores foram condenados, mas ficando com pena suspensa. Nunca estiveram atrás das grades

Manuel foi resgatado em Dezembro de 2006 de um barracão, guardado por um rotweiller, onde ninguém conseguia entrar, na freguesia de Granho. Ao fim-de-semana, o filho, acusado de sequestro, levava-lhe latas de feijão e salsichas. O idoso aquecia-as "com uma luz" e fazia as necessidades "por ali", recorda.

Adelaide Baptista, prima do idoso, disse ao DN que a situação agravou-se em 2004, quando o filho mais novo foi trabalhar para Espanha. "Antes ele cuidava dele e eu tinha uma chave. O mais velho mudou a fechadura e eu deixei de o ver. Mas ouvia os gritos de aflição", diz à porta da casa que fica a mais de 300 metros do local onde Manuel viveu anos sob sequestro.

Foram os gritos que levaram os vizinhos a queixarem-se à Junta de Freguesia e, mais tarde, à GNR. chegaram em Junho desse ano, mas as queixas de que Manuel vivia em condições precárias e num sofrimento atroz a solução só apareceu seis meses depois.

"A adaptação ao lar foi difícil. Ele não sabia onde fazer as necessidades. Vinha com muita fome. Hoje já sabe e é muito sossegado", diz a técnica responsável, Ana Guilherme. Mas chora muito. "Deve ser o seu estado depressivo".

O filho mais novo ainda o visita de vez em quando. O mais velho e a mulher, constituídos arguidos no dia em que Manuel foi resgatado, não mais deram notícias.

O casal foi libertado, mas acusado de sequestro do idoso a quem gastavam a reforma, de cerca de 200 euros/mês - do seu trabalho enquanto funcionário da EPAL.

Há um ano, no tribunal, os militares da GNR e as técnicas da Segurança Social recordaram ao juiz como encontraram o idoso. O casal acabou por ser condenado. Ele a três anos e nove meses de prisão - pena suspensa pelo mesmo período - e ela a dois anos e dez meses, igualmente suspensos. Nunca estiveram atrás das grades. Os filhos puseram agora a fazenda do idoso à venda. "Não o trataram e agora querem vender-lhe os bens", critica o provedor.

"Como é possível isto acontecer em pleno século XXI?", interroga Adelaide, das únicas visitas de Manuel, que assim que viu o caso de Coruche ser noticiado - em que uma idosa e o filho deficiente viveram em condições semelhantes - se lembrou do seu primo.