sábado, 31 de outubro de 2009

O Crime do Padre Armado




O final da história é sempre o mesmo: todos dizem que sabiam. Que não há motivo para bocas abertas, nem admiração. Que o padre não enganava ninguém. Que usava a batina como disfarce porque "de um padre ninguém desconfia". Que o pároco tinha armas e negócios ilegais, gostava de caçar, dava tiros nas traseiras da casa e levava sempre uma pistola para a missa, ou vendia as armas na igreja.Eis a história: o padre Fernando Guerra, 74 anos, foi detido anteontem no fim da missa na aldeia de Covas do Barroso, Boticas, por suspeita de posse ilegal e tráfico de armas. À chuva, militares da GNR esperaram pelo fim da eucaristia das 7 horas de domingo. Aguardaram que os 40 fiéis saíssem e surpreenderem o padre na sacristia, enquanto despia os paramentos e se preparava para seguir para a paróquia vizinha. Depois das buscas à igreja e à casa do padre, a GNR encontrou munições e seis armas ilegais - três pistolas e três caçadeiras - e o padre foi detido. Foram detidas outras três pessoas, com idades entre os 50 e os 54 anos. Os fiéis das aldeias de Cerdedo, Vilar e Videiro, já não tiveram direito a missa. Ontem, à hora do fecho desta edição, o padre continuava a ser ouvido pelo juíz no Tribunal de Boticas.Na aldeia dos 400 habitantes, com casas de pedra e uma velha igreja românica, a detenção do padre Fernando Guerra não foi uma surpresa. Nas redondezas, também não. Os habitantes desfiam o currículo e a fama pública de um pároco há 50 anos no sacerdócio, há 30 anos naquela freguesia e pouco amado pela população. Sem adiantarem nomes verdadeiros, com medo de represálias e de vinganças. "Coisas de terra pequenina onde os grandes é que mandam."A ligação do padre de Boticas às armas não era segredo, nem era nova - arrasta-se há muito tempo. Há 25 anos, pelo menos, o padre entretinha-se a limpar armas "descaradamente" nas aulas de religião e moral. "Fui aluna dele. E lembro-me de ele contar notas e limpar armas à frente dos alunos, nas aulas de religião e moral na escola secundária de Boticas. Se perguntarem a pessoas da minha idade, vão ver que todos os miúdos viam isso, mas ninguém dizia, porque tinham medo, porque o padre é da máfia grande", diz uma mulher de 40 anos, dona de um restaurante em Boticas. E acrescenta: "Era uma figura querida apenas para as beatas falsas. Todos sabiam que ele só vivia para o dinheiro."Fernando Guerra recusava-se frequentemente a fazer um funeral ou um baptizado às famílias que não lhe tivessem pago a premissa anual. Era agressivo, agarrado ao dinheiro, vingativo. "Fazia tudo por euros. Disse várias vezes que só fazia este ou aquele funeral depois de lhe pagarem as contribuições em dívida", diz um morador na aldeia vizinha de Videiro. Conduzia um Mercedes que os moradores dizem ter sido apreendido naquela manhã por estar em situação ilegal. Mas também andava com "outros carros finos": "Cada dia andava com um diferente."Diz o dono de um café em Boticas onde, nos últimos dois dias, a história do padre é tema de conversa obrigatório: "Todos dizem que já deveria ter sido preso há muito tempo. Ele não é boa gente." Depois, como em todas as histórias de aldeia, o provérbio "quem conta um conto, acrescenta-lhe um ponto" encaixa na perfeição. Uns dizem que há 15 anos o padre agrediu o sacristão da paróquia com a coronha de uma pistola por causa do horário de um funeral. Outros dizem que tudo aconteceu porque o sacristão tocou o sino mais cedo do que o combinado. Outros dizem ainda que não se tratou de uma agressão com a pistola mas de um tiro. O caso nunca chegou a tribunal.Em Julho de 2005, o padre voltou a ser notícia de café depois de denunciar ter sido alvo de uma tentativa de homicídio. Contou que seguia no carro quando alguém disparou vários tiros. Na aldeia transmontana, há quem diga que tudo não passou de uma invenção e que os tiros foram disparados pelo próprio.O Bispo de Vila Real já anunciou que o padre se irá manter à frente da paróquia de Covas. Os moradores questionam-se sobre "que moral tem um homem destes para andar a pregar nas igrejas", mas cruzam os braços. Da mesma maneira que todos sabiam que escondia armas, aceitam como inevitável que o padre suspeito de envolvimento numa rede criminosa volte a vestir a batina e a celebrar missas. Diz a dona do restaurante de Boticas, de imediato: "A população vai aceitar o regresso, vai. É tão natural como a sede. Todos lhe têm medo."