quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Armando Vara suspeito de intermediar negócio com a EDP



Armando Vara é um dos arguidos que tiveram o telemóvel sob escuta. O vice-presidente do BCP é suspeito de ter intermediado um negócio com a EDP. O qual, segundo o Ministério Público de Aveiro, valeu a um administrador da empresa um 'Mercedes'. Nome da operação da Polícia Judiciária coincide com uma conhecida casa de alterne


Coincidência ou não, certo é que a operação da Polícia Judiciária, que apanhou, entre outros, Armando Vara e José Penedos (presidente da REN), foi baptizada com o nome de uma conhecida casa de alterne de Aveiro, a "Face Oculta". Talvez parte da investigação tenha passado por ali. Mas, até agora, os dados disponíveis apontam "apenas" para uma rede tentacular de corrupção e influências junto de grandes empresas participadas pelo Estado. O vice-presidente do BCP - um dos arguidos do processo que teve o telemóvel sob escuta e que vai ser ouvido no Tribunal de Aveiro a 9 de Novembro - é suspeito de ter intermediado um negócio entre Manuel Godinho, empresário e o principal suspeito do processo, e a EDP.


Por esta susposta intermediação, Armando Vara, de acordo com o Ministério Público de Aveiro, terá recebido, durante uma reunião num gabinete do Millennium BCP, 10 mil euros em notas das mão de Manuel Godinho. Depois da reunião com Vara, Manuel Godinho foi seguido a atravessar a rua para um edifício da EDP. À sua espera estava Domingos Paiva Nunes, vogal da administração da EDP Imobiliária, cuja porta do gabinete foi, segundo as conversas interceptadas, "aberta" por Armando Vara.


O despacho do procurador do MP de Aveiro refere que o vice-presidente do BCP fez uma ponte com Domingos Paiva Nunes, vogal do Conselho de Administração da empresa EDP Imobiliária. Após o contacto de Vara, o empresário de Aveiro e Paiva Nunes passaram a falar directamente, segundo as escutas telefónicas. Numa das conversas interceptadas, o quadro da EDP terá solicitado a Manuel Godinho uma viatura de valor não inferior a 50 mil euros. A 4 de Junho deste ano, o quadro da EDP terá recebido a prenda junto à casa de férias de Manuel Godinho: um Mercedes SL 500.


Idêntica sorte teve António Paulo Costa, quadro da Petrogal, a quem, de acordo com o MP de Aveiro, também foi presenteado com um Mercedes CL 65 AMG. Mas não foi bem um presente a estrear, o carro pertencia ao próprio Manuel Godinho.


Armando Vara foi um dos cinco arguidos que durante vários meses estiveram sob escuta telefónica. E terá sido a partir deste meio que os investigadores recolheram provas de que o vice-presidente do BCP solicitou e recebeu dinheiro como contrapartida para a mediação de negócios, assim como terá mostrado disponibilidade para resolver uma contenda judicial entre uma empresa de Manuel Godinho e a Refer. No processo estão documentados, pelo menos, cinco encontros/contactos entre Godinho e Vara. O primeiro, tal como DN adiantou ontem, em Fevereiro deste ano (almoço em Vinhais). Depois, a 23 de Maio, outro almoço em Lisboa. Dois dias mais tarde, um encontro num gabinete do BCP. Neste mesmo dia, por telefone, Godinho contou a Vara como correu a reunião com Paiva Nunes. Por fim, a 1 de Julho, novo encontro no BCP do Porto. Na passada quarta-feira, a Polícia Judiciária apreendeu na casa de Armando Vara, em Lisboa, o seu telemóvel e computador pessoal.



Anteontem. o vice-presidente do BCP emitiu um comunicado, garantido estar "inocente". "Pelo que aguardo com o maior interesse as provas que as autoridades venham a exibir relativas ao meu envolvimento no processo, o que por certo será efectuado em sede própria e não através da comunicação social", escreu numa nota enviada aos trabalhadores do banco.


Os contactos de Manuel Godinho estenderam-se ainda à área da Defesa. O MP sustenta que António Paulo Costa mediou um encontro com José António Contradanças, vogal da IDD - Indústria de Desmilitariza- ção e Defesa. O despa- cho refere que Godinho foi convidado a apresentar-se formalmente à empresa, ficando com uma porta aberta para ser favorecido em concursos daquela empresa.


No contexto de intermediação, são ainda referidos no processo mais dois nomes: Lopes Barreira, administrador da Consulgal, a maior empresa de consultadoria em Portugal e um indivíduo de nome Manuel Rodrigues, a quem os alguns intervenientes no processo atribuem "excelentes ligações".


A alegada rede de contactos de Manuel Godinho tinha ainda ramificações na GNR. Há duas situações relatadas nos autos: uma relacionada com um pedido de uma palete de cimento por parte de um cabo da Guarda, a outra passa pelo emprego que Godinho deu à mulher de um militar.


Entretanto, Mário Lino, ex-ministro das Obras Públicas, negou ontem ter recebido qualquer pressão para demitir a administração da Refer, como consta de algumas conversas telefónicas do processo. "Isso é uma coisa perfeitamente disparatada", disse à agência Lusa. O nome do ex-ministro é referido como um alvo por parte do grupo de Manuel Godinho para que a Refer desistisse de um processo judicial contra uma sociedade de Godinho.