LUA

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Deficiente acusa lavradores de o terem escravizado



"Se não pusesse as mãos na vedação electrificada, obrigavam-me a pôr a língua", contou, ontem, em tribunal, Rui Manuel Machado, após pedir que saísem da sala os quatro membros da família de Vila Verde que acusa de o terem escravizado. Arguidos negam acusação.

"Batiam-me sempre e não sei porquê. Estava sempre a apanhar porrada. Obrigavam-me a baixar as calças e davam-me com chicotes feitos de cabos eléctricos", contou, aos juízes, Rui Manuel Machado.

O homem, que tem uma ligeira deficiência, relatou ainda que trabalhava desde as seis horas até à meia-noite. "Às vezes, ficava a trabalhar até à uma hora da madrugada. Ficava a limpar carpetes, arrumava a cozinha e limpava o chão", continuou a relatar.

"Lavava a vacaria toda. Tinha de utilizar, com as mãos, lixívia, ácidos e água-forte. Para curar? Eles abriam-me as mãos e deitavam tintura de iodo", afirmou.

Rui Manuel Machado lembrou que só foi levado ao médico uma vez, apesar de ter admitido perante os juízes que nunca tinha ficado doente. Portador de uma deficiência moderada, não soube dizer em que dia nasceu nem como iria até à sua actual morada. Quantos aos "primos", era assim que tratava os quatro arguidos, um casal e dois filhos, donos de uma exploração agrícola, afirmou: "Nunca comi na mesma mesa com eles".

"Eram as roupas do Pedro. Apenas na primeira comunhão e na comunhão solene é que tive roupa diferente". Acrescentou que só tinha "um par de galochas para o Inverno e andava descalço no Verão". Também referiu que praticamente nunca tinha andado na escola, e que nunca viu televisão, nem esteve em Braga, nem recebeu dinheiro pelo seu trabalho .

Acusa ainda aquela família de Vila Verde e o ter deixado passar fome. Por isso, fugia para uma vizinha. "A Sameirinha dava-me de comer", referiu.