LUA

quinta-feira, 18 de junho de 2009

10 milhões em offshores


Cerca de dez milhões de euros encontrados em off-shores levaram ontem a PJ à Câmara de Gondomar, à casa de Valentim Loureiro e também à residência dos seus filhos Jorge e Nuno. As autoridades tentam perceber a origem do dinheiro e o porquê de o mesmo ter sido depositado em paraísos fiscais. Estão em causa suspeitas de branqueamento, fraude fiscal e corrupção.


As quantias em causa foram detectadas durante a investigação ao negócio da Quinta do Ambrósio. Foi nessa altura que a PJ percebeu que Jorge e Nuno Loureiro eram titulares de duas contas no Finibanco Cayman, enquanto Luís Oliveira (vice da Câmara) e Américo Neves (presidente do Sousense) tinham contas no BPN Cayman.

Os valores das transferências são elevados. Por exemplo, para a conta de Américo Neves foram transferidos, em Dezembro de 2003, 899 mil euros de uma sociedade desconhecida; a 10 de Março de 2004 foram creditados 400 mil euros na conta dos filhos de Valentim. A 29 de Junho do mesmo ano os valores aumentaram. Quase oito milhões e meio foram depositados em nome de uma sociedade. Depois foram feitas transferências de valores menores para empresas de familiares de Valentim.

Encontrar o rasto deste dinheiro foi o objectivo dos investigadores que ontem começaram as buscas numa das casas de Valentim, situada na Foz do Porto. As diligências demoraram pouco mais de meia hora e resultaram na apreensão de alguns documentos guardados no escritório.

"A polícia esteve em minha casa de manhã e de facto levaram alguns documentos que, na minha opinião, não vão ter qualquer interesse", explicou mais tarde o autarca, visivelmente indignado com nova intervenção das autoridades.

As buscas da PJ continuaram, com Valentim Loureiro a ser acompanhado pela Judiciária até à Câmara, onde mais 18 inspectores o esperavam.

As buscas começaram no gabinete da presidência. Valentim Loureiro garante que aí nada foi apreendido. "Do meu gabinete garanto-vos que não levaram um único papel. Estão a tentar derrubar-me, mas ninguém derruba o Valentim Loureiro", gritou à janela, ainda durante a manhã, e enquanto a acção policial decorria.

Segundo apurou ainda o Correio da Manhã, as buscas efectuadas pelos inspectores estenderam-se também aos gabinetes do vice-presidente Luís Oliveira e da vereadora Germana Rocha, responsável pela Divisão de Recursos Humanos e Gabinete de Estudos Estratégicos.

"UM DIA NORMAL NA CÂMARA"

As buscas efectuadas pela Polícia Judiciária na Câmara foram desvalorizadas pelos autarcas. À saída para almoço, os vereadores Castro Neves, arguido no processo ‘Apito Dourado’, e Fernando Paulo agiram como se nada se passasse e sorriram para os jornalistas. "Não demos por nada, se não fosse a presença da Comunicação Social tinha sido um dia normal na Câmara", disse o assessor de Valentim.

ADVOGADO ABRIU CONTA-FANTASMA

A operação ‘Apito Dourado’ aconteceu a 20 de Abril de 2004. No dia seguinte as autoridades apuraram que o advogado de Luís Oliveira, António Araújo Ramos, abriu uma conta no BPN Cayman. Transferiu para essa conta cem mil euros de Américo Sousa Neves, também com conta na mesma sucursal-fantasma e presidente de um clube do concelho de Gondomar. No dia 23, o advogado recebeu novo depósito: um milhão e 380 mil, de Luís Oliveira. Nova transferência a 3 de Julho. O advogado recebeu mais 507 mil euros.

FALSOS PREJUÍZOS EM CAUSA

Uma investigação com cerca de quatro anos, visando a empresa JP Sá Couto, de Matosinhos (responsável pela comercialização e pelo fabrico do computador ‘Magalhães’), levou ontem os elementos da Polícia Judiciária às instalações da fábrica para apreender documentação vária.

Estão em causa cerca de cinco milhões de euros de uma alegada fraude que poderá passar pela imputação de falsos prejuízos. Além da JP Sá Couto há outras empresas envolvidas, também elas alvo de buscas judiciais.

Segundo o CM apurou, as autoridades optaram por fazer coincidir as duas operações (as buscas à JP Sá Couto e as que atingiram Valentim Loureiro e pessoas que lhe são próximas) por ambas decorrerem no Porto. Estava em causa evitar deslocações desnecessárias dos investigadores, já que o processo se encontrava a cargo da Direcção Central de Combate ao Crime Económico da PJ, com sede em Lisboa.

As buscas à JP Sá Couto começaram pelas 08h00 e terminaram ao final da manhã. Foram recolhidos os elementos contabilísticos dos anos 2000, 2001 e 2002, depois de a inspecção feita pelas Finanças ter detectado suspeitas de fraude fiscal qualificada (cujo prazo de prescrição é de dez anos).

Em comunicado, emitido durante a tarde de ontem, a empresa confirmou as buscas, mas negou a prática de qualquer irregularidade.

"Esta visita foi curta e todos os documentos solicitados foram prontamente disponibilizados", pode ler-se no mesmo documento.

Um dos administradores da empresa, João Paulo Sá Couto, desvalorizou as investigações, garantindo que os documentos agora levados pela PJ já tinham sido apreendidos pelas Finanças. n

FRAUDE NO BESSA EM JULGAMENTO

Uma fraude milionária. A SAD do Boavista, assim como os três ex-administradores João Loureiro, (filho de Valentim), Carlos Pissarra e Vítor Borges estão acusados de lesar o Estado em 3,4 milhões de euros, entre 2001 e 2004 . O julgamento, pelos crimes de abuso de confiança e fraude fiscal, deveria ter-se iniciado em Dezembro de 2008, mas foi suspenso para se apurar que parte da dívida já foi paga pelo Boavista através de um Plano Extrajudicial de Conciliação.

PORMENORES

TELEFONEMAS

Durante a maior parte do dia o major permaneceu no seu gabinete, onde passou todo o tempo ao telefone. O tom de voz exaltado era audível para quem passava na rua.

"ELEIÇÕES À PORTA"

Valentim Loureiro afirmou que as buscas da Polícia Judiciária são apenas mais um ataque para o tentar derrubar. "As eleições estão mesmo à porta e isso diz tudo", afirmou.

APOIO DOS ELEITORES

O autarca diz ter recebido durante o dia várias manifestações de apoio por parte dos eleitores. Valentim fez questão ainda de afirmar que Gondomar está do seu lado.

INSTRUÇÃO NO CASO QUINTA DO AMBRÓSIO

O processo relativo à venda da Quinta do Ambrósio, em Gondomar, encontra-se em fase de instrução. Valentim Loureiro e Oliveira são arguidos no processo.

PENA SUSPENSA PARA AUTARCAS

Valentim e Oliveira foram condenados em pena suspensa no processo ‘Apito Dourado’. Ambos arriscam a efectivação da sentença, se sofrerem outra condenação.

PERDER MANDATO COMO PRESIDENTE

Uma das penas acessórias aplicadas a Valentim no caso ‘Apito Dourado’ foi a perda do mandato camarário. O MP quer que o mesmo se aplique ao próximo.

CORRUPÇÃO EM JOGO DO BOAVISTA

Valentim é ainda arguido e deverá começar a ser brevemente julgado por suspeita de corrupção desportiva. Está em causa um jogo Boavista-Estrela

SAIBA MAIS

ILHAS CAYMAN

A maioria dos envolvidos tinha contas no BPN Cayman e no Finibanco Cayman. O dinheiro passava por várias contas em poucas horas.

8,405

milhões de euros foram transferidos a 29 de Junho de 2004 do Finibanco Sucursal Cayman para uma instituição desconhecida. Nesse mesmo dia, dessa conta, foram transferidas duas verbas – um milhão e cinco mil euros e 400 mil, para contas da Companhia de Fiação e Tecidos de Ferro e para a Sociedade Actinvestec. Os filhos de Valentim são administradores.

402 mil

euros foram creditados na conta de Luís Oliveira no BPN Cayman. O dinheiro foi transferido de uma conta de um sobrinho de Valentim Loureiro.

PAPÉIS NA SANITA

Quando foi detido, em 2005, Luís Oliveira tentou destruir os documentos das contas offshore. Foi apanhado pela PJ a atirar papéis para a sanita.

NOTAS

QUINTA DO AMBRÓSIO: MILHÕES

No processo relativo à Quinta do Ambrósio foram também detectadas diversas transferências que envolveram contas no BPN Cayman e no Finibanco Cayman.

BUSCAS: TRÊS DEZENAS

A Polícia Judiciária fez ontem cerca de trinta buscas domiciliárias a empresas e particulares. Os crimes em causa eram de branqueamento, fraude fiscal e ainda corrupção.

LIGAÇÃO: COINCIDÊNCIA

As buscas à JP Sá Couto nada têm a ver com a operação desencadeada contra Valentim Loureiro. Acontecem na sequência de uma inspecção das Finanças.